Ed Viggiani/AE -20/07/07

O boca maldita da literatura

Geração Editorial põe nas prateleiras mais uma edição de A academia do fardão e da confusão, do polêmico jornalista Fernando Jorge

RAFAEL DIAS

Especial para o DIARIO

Um dos maiores polemistas vivos do país, o jornalista e escritor fluminense

Fernando Jorge volta a exibir a mesma língua ferina que fez alvoroçar inimigos

durante o regime militar. Aos 79 anos, o aclamado e premiado biógrafo -

vencedor do prêmio Jabuti pelo livro O aleijadinho e de uma honraria

concedida pela Academia Brasileira de História, por Getúlio Vargas e seu

tempo - não deixa o tempo esfarelar as páginas amarelas de sua consciência

ao defender o que pensa. Ao contrário. Sua linguagem virulenta e ácida,

temperada com fina ironia e humor sarcástico de "boca maldita", continua a

provocar tremor nas bases de qualquer um que topar pelo seu caminho e se tornar alvo de suas críticas.

Sem medo de criar saias justas e incitar novas contendas (já foi processado quatro vezes), Fernando Jorge está relançando uma de suas mais polêmicas obras, A academia do fardão e da confusão - A Academia Brasileira de Letras e os seus "imortais" mortais, best seller lançado em 1999, que está na sua oitava edição. A reedição não poderia surgir em hora mais delicada. Em julho passado, a Academia Brasileira de Letras, órgão político máximo da literatura brasileira, completou 110 anos de fundação.

No livro, um calhamaço de 600 páginas, ele implode a ABL e seus alicerces, desferindo ataques a acadêmicos e revelando fofocas e futricas dos corredores. Nele, intelectuais como Celso Furtado, Paulo Coelho e José Sarney, entre outros, são reduzidos a pó. Ao Diario, o jornalista concedeu uma ácida entrevista por e-mail (que foi escrita de próprio punho, com letras garrafais, e escaneada, o que confere ainda mais dramaticidade a sua fala), em que desfia impropérios a falsos literatos e, entre outras coisas, comenta o caso da biografia do cantor Roberto Carlos.

Entrevista [ Fernando Jorge ] "A ABL é vítima de sua própria nulidade"

Ridícula, simiesca, grotesca, anacrônica, completamente inútil, elitista, aristocrática. Há algum adjetivo que o sr. queira acrescentar ao livro para se referir à ABL hoje? Ou retiraria algum de seus comentários?

Não retiro nenhum dos adjetivos que empreguei a fim de defini-la. Eu a vejo como uma instituição inútil, estéril como o útero de uma mula, e sobretudo covarde, pois na época do regime militar agachou-se diante dos generais, sem nunca protestar contra a censura, os atos de arbítrio, as torturas infligidas a estudantes, professores, jornalistas, intelectuais, defensores dos direitos humanos. A ABL sempre me deu a impressão de ser uma grande reacionária e uma decrépita senhora fascista.

No livro, o sr. não perdoa ninguém: Rachel de Queiroz, Machado de Assis, Nélida Piñon. Ninguém se salva da fogueira de vaidades? 

Não perdoei a Rachel de Queiroz por um simples motivo: ela se mostrou a favor da censura na época do regime militar. E critiquei Machado de Assis pelo fato de querer que a ABL fosse uma entidade aristocrática. Quanto à Nélida Piñon, ela é uma mestra na arte de se promover, de fazer política literária, pois é uma péssima escritora. Na ABL se salvam Cony, Lygia, João Ubaldo.

Em 1963, a sua biografia de Olavo Bilac foi vetada pelos membros da ABL. A academia do fardão e da confusão seria uma espécie de retaliação?

Sim, o meu livro Vida e poesia de Olavo Bilac, do qual acaba de sair a quinta edição pela editora Novo Século, foi condenado pela ABL. Falsos moralistas, os velhotes da academia, com o Raimundo Magalhães Jr. à frente, moveram uma campanha contra essa minha obra, alegando que eu desrespeitei Bilac ao descrever fatos de sua existência. Resultado: sem querer, eles transformaram meu livro num best-seller. Concordo, o meu livro sobre a ABL é também uma vingança, mas não totalmente.

Clarice Lispector e Sérgio Buarque de Hollanda foram esquecidos pela Academia. Quais os critérios para que um escritor se torne um acadêmico? É lobby ou pressão de mercado?

Para alguém querer se tornar "imortal mortal" precisa ter, atrás de si, o poder político ou o poder econômico. Cito como exemplos o caso do senhor José Sarney e do senhor Roberto Marinho. Se o primeiro não fosse, na época em que foi eleito membro da ABL, um político de prestígio, jamais teria entrado. Sarney merece estar ali, ao lado de Paulo Coelho, que é um sub-Sarney, uma completa nulidade literária. E quem entrou para a ABL não foi Roberto Marinho, foi a Globo.

A ABL é uma vítima ou um algoz de sua depauperização como instituição literária, como o sr. descreve no livro?

A ABL é vítima da própria mediocridade, ou melhor, de sua própria nulidade. É pobre e ao mesmo tempo rica. Pobre por não ter valor, por ser inexpressiva, por abrigar 90% de fulanos medíocres, que são autênticos literaticidas (assassinos da literatura). Rica porque tem dinheiro.

Qual deveria ser a finalidade da ABL?

A finalidade da ABL devia ser esta: eleger os escritores de talento e não os literaticidas, os políticos labiosos, repletos de vaidade e de cérebros ocoscomo os santinhos de pau oco, os empresários entupidos de dinheiro, porém vazios de cultura e até de inteligência. Ela devia fundar uma editora para vender ao povo livros bem baratos. Também devia deixar de ser medrosa e nunca aceitar qualquer tipo de censura, de atentados à liberdade de expressão ou de pensamento. Os cursos que ela promove são fraquíssimos e chatíssimos, geram bocejos e sono profundo.

Quem o sr. acha que poderia ocupar uma cadeira na Academia: Jô Soares ou Bruna Surfistinha?

Sem dúvida a Bruna Surfistinha. O Jô Soares merece coisa melhor. A Bruna poderia ser a massagista daqueles velhotes reumáticos, tentando amaciar suas pelancas, lendo para eles o seu livro.

O que o sr. achou do caso da biografia de Roberto Carlos (escrita pelo jornalista Paulo César Araújo, retirada das livrarias a pedido do cantor)?

Passei a duvidar da inteligência do Roberto Carlos. Não sabia que ele era fascista, admirador de Benito Mussolini. O autor do livro foi fraco, não devia ter cedido. Eu reagiria e meteria um processo nesse cantor xaroposo, decadente, em fase de queda livre no campo da intolerância cretina. Se houvesse transplante de cérebros, eu aconselharia o Roberto Carlos a substituir seus miolos.

Entrevista de Fernando Jorge publicada no Diario de Pernambuco (19/08/2007).

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Fernando Jorge

Escritor e Jornalista

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